SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA

 
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Edição 04 - Abril / Junho - 2005


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Volume I - Número 4 - Abril / Junho - 2005

Como deveria ser o curso de Sexualidade Humana para estudantes de Medicina?

Urologistas e psicólogos apresentam suas sugestões para um curso sobre sexualidade humana

CARMITA ABDO
Professora Livre Docente do Departamento de Psiquiatra da FMUSP; Fundadora e Coordenadora do Projeto Sexualidade – ProSex do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (Brasil).

A “cena temida”, da qual nenhum médico deseja ser protagonista, é aquela que o emudece ou o faz gaguejar, diante de determinada colocação de um paciente. Treinado na Faculdade e na Residência Médica para agir com presteza e objetividade, o médico dá sinais de insegurança e/ou indignação, se a queixa trazida ao consultório o tira do controle ou o coloca numa “saia justa”. As dificuldades sexuais são tema prevalente dessa “cena”, porque – devido a razões bem pouco médicas - milênios de História da Medicina foram distanciando do foco das atenções curriculares o aspecto erótico da atividade sexual, afastando o médico (mas não o paciente) do trato dos assuntos de alcova, de seus encantos e de seus desencantos. O resultado não foi dos mais felizes: “Eu não investigo e você não me pergunta”.

Esse é o acordo tácito estabelecido entre boa parte dos profissionais de saúde e respectivos pacientes, quando o assunto é vida sexual. Esse acordo “soluciona” constrangimentos de parte a parte, garantindo que “essa” angústia não contamine a relação médico-paciente. Por outro lado, oprimido pelo tempo da consulta (cada vez mais curto) e o conhecimento médico (mais e mais ampliado), o profissional deve realizar a façanha de anamnese, diagnóstico e prescrição instantâneos e precisos, fazendo frente à descabida agenda, resultado do nosso caótico sistema de saúde.

Some-se a tudo isto que, nas últimas décadas, dilataram-se os conteúdos programáticos das diferentes disciplinas do Curso Médico, bem como os anos de Residência de diversas especialidades.O novo e grande desafio daqueles a quem cabe compor e/ou reformular estes currículos reside em trabalhar por uma meta que contemple o generalista e também o especialista: um programa ágil e capaz de encadear, de forma compacta mas completa, toda a aquisição de conhecimento necessário à prática da Medicina.Essa “economia” depende, essencialmente, de organização e objetividade e já vem sendo buscada na reformulação curricular das várias Faculdades.

Boa oportunidade, então, para inclusões indispensáveis, como é o caso da disciplina de Sexologia Médica, que começa a despontar em diversos currículos, sob a forma de aulas esparsas e ainda pouco sistematizadas.

Assim como as cadeiras básicas preparam o aluno para o raciocínio e o conhecimento clínico, disciplinas como Psicologia Médica, Bioética, Bases Humanísticas da Medicina - hoje integrantes dos programas da maioria das Faculdades de Medicina do País - podem iniciar nossos jovens estudantes no estudo da Sexualidade, oferecendo-lhes condições para um primeiro contato com esse estudo. Essa iniciação deverá servir para solidificar a educação sexual desses alunos e mobilizá-los a cuidar de sua própria sexualidade, tão exuberante quanto irriquieta nos primeiros anos da Faculdade.
Por meio de uma disciplina supra-departamental, ministrada por professores de urologia, ginecologia, psiquiatria, endocrinologia, clínica geral... à época do Internato, e já contando com a maturidade do aluno, um conteúdo interdisciplinar de Sexologia Médica deverá, então, ser ministrado. Esses professores deverão ter formação nessa área.

Só profissionais “resolvidos” em sua vida sexual lidam bem com problemática dessa natureza em seus pacientes. Esta é uma forte razão pela qual se deva deixar a disciplina de Sexologia para o final do Curso Médico, depois do aprendizado em áreas afins, pré-requisito a essa nova aquisição.
Não me arrisco a propor aqui, desta vez, um programa disciplinar, mas me comprometo a fazê-lo em breve oportunidade.

Àqueles que já se formaram e se ressentem da falta de conhecimento de Sexualidade, sugere-se ouvir, tranqüilizar e encaminhar o paciente para o tratamento das dificuldades sexuais, com profissional habilitado. Melhor ainda seria todo médico procurar sanar esta lacuna de sua formação, por meio de Cursos, Simpósios, Congressos e leituras específicas. Estamos vivendo um momento de especial produtividade nesse campo.

Um voto de louvor ao nosso País, onde vivem médicos altamente gabaritados, comparáveis aos melhores, também na área da Sexologia Médica. Certamente, esses profissionais (praticamente auto-didatas) foram sensíveis, ao longo do exercício da profissão, às demandas da nossa gente, tão interessada na prática sexual quanto necessitada de tratamento adequado para atingir a almejada saúde sexual.

 

JOAQUIM DE ALMEIDA CLARO
Professor Livre Docente de Urologia Escola Paulista de Medicina- UNIFESP (Brasil)
No mundo todo, verificamos uma verdadeira revolução sexual, apenas comparável com a introdução da pílula anticoncepcional (feminina) nos anos 60. Porém, agora essa revolução é de ambos os sexos. Homens e mulheres, independente de etnia, religião, formação cultural, idade e até mesmo opção sexual, buscam uma melhor qualidade de vida. Fiicou claro nesse final de milênio que o adequado desempenho e satisfação sexuais são parte fundamental para atingir esse objetivo. O sexo deixou de ser proibido, bobagem ou vulgar. A discussão sobre sexo atingiu todos os níveis sócio-culturais, todas as idades e, mais importante ainda, todas as famílias, deixando de ser impronunciável, por exemplo, à mesa de jantar. A palavra sexo deixou de ser sinônimo de pornografia e assumiu um papel de destaque na formação de todo ser humano. Assim, a ciência e a medicina, em particular, não poderiam deixar de assumir o papel de formadoras de opinião, agindo na orientação e esclarecimento de jovens, adultos, mídia, colégios e representantes das mais diversas religiões.
A urologia e os urologistas mais intimamente ligados ao tema cumpriram e cumprem um papel de destaque nessa formação de uma sociedade mais moderna e consciente em relação ao sexo. Contudo, as escolas de medicina, preocupadas com temas mais tradicionais e talvez mais graves, mormente num país pobre, e devido à sua falta de agilidade, até por representarem a memória cultural dos povos, não conseguiram, até o momento, assimilar essa transformação. Desta forma, não temos à disposição de nossa população médicos, psicólogos, enfermeiros, sociólogos, teólogos e filósofos preparados através de um currículo que contemple esse tema.

No caso da medicina, esse currículo específico para a sexualidade normal e anormal torna-se ainda mais importante, já que inibe tanto a formação adequada de médicos não-especialistas nesse campo, mas também e principalmente a formação de sexólogos sérios e com a formação e especialização necessárias para o desempenho dessa nova forma de medicina.

Assim, creio que esse curso deveria ser abrangente, contemplando todos os aspectos da sexualidade feminina e masculina, durante todas as faixas etárias do ser humano. Nesse curso devem ser incluídos aspectos fisiológicos, emocionais, humanísticos, religiosos, sociológicos e práticos, em todos os níveis; desde a formação acadêmica, especialização e em nível de pesquisa e pós-graduação.

Naturalmente, esse curso ainda que em nível de graduação exigiria uma carga horária compatível com seus objetivos e com a importância atual do tema.

Inicialmente, eu creio que o curso teria de ser ministrado tanto na urologia como na ginecologia, além de fazer parte do currículo da clínica médica (geriatria), pediatria (já que o tema é extremamente importante para pré-púberes), endocrinologia e psiquiatria. Porém, posteriormente, a médio prazo, com a formação natural de sexólogos, esse curso deveria ser transformado em especialidade médica, sem contudo deixar de ser ministrado na graduação acadêmica de nossos médicos.

 

LUIS FERNANDO QUINZAÑOS (México)
Poderíamos colaborar desenhando um questionário para a inclusão da matéria de sexologia nas Escolas de Medicina. Tenho entendido que há 18 meses esta matéria faz parte do currículo da Faculdade de Medicina da Universidade la Salle, na Universidade Autônoma do México (UNAM), como matéria optativa.

 

MARGARETH DOS REIS
Psicóloga Clínica e Terapeuta Sexual no Instituto H. Ellis (Brasil)
A escola é o principal centro de ensino-aprendizagem, de treinamento de convívio social, no qual são adquiridos informações, conceitos e valores vitais. Como a sexualidade está presente desde o início da vida do ser humano, a visão crítica e reflexiva sobre esse tema deve servir de estímulo na vida acadêmica para promover o respeito por si mesmo e pelo outro, a compreensão da influência dos papéis sociais no relacionamento interpessoal e na organização social e, ainda, o reconhecimento da afetividade como parte integrante da sexualidade.

Portanto, para propiciar a compreensão do ser humano como um todo, um currículo sobre Sexualidade Humana tem de incluir o entrecruzamento de saberes procedentes de diferentes áreas do conhecimento – estudados, progressivamente, a partir dos simples conceitos anatômicos até a percepção psicopatológica. Sob esta perspectiva, objetivos curriculares de disciplinas de cada ano do curso de Medicina, que podem se relacionar com objetivos da Sexualidade Humana, devem servir de base para a adequação e aplicabilidade da temática sexual ao nível dos currículos.
Segue uma proposta para estruturação do estudo da Sexualidade Humana no curso de Medicina

Como seria o curso ?

1º. ano
• Anatomia dos Órgãos Sexuais – estudada, separadamente, dentro da Anatomia;
• Fisiologia da Sexualidade e Reprodução I.

2º. ano
• Fisiologia da Sexualidade e Reprodução II
• Psicologia da Sexualidade e Reprodução I

3º. ano
• Fisiologia da Sexualidade e Reprodução III – Urologia, Ginecologia
• Psicologia da Sexualidade e Reprodução II

4º. ano
• Fisiologia da Sexualidade e Reprodução IV – Urologia, Ginecologia
• Psicologia da Sexualidade e Reprodução III – Psiquiatria
• Psicopatologia da Sexualidade I – Psiquiatria

5º. ano
• Psicopatologia da Sexualidade II – Psiquiatria

6º. ano
• Optativamente: Psicopatologia da Sexualidade III – Psiquiatria

Quanto tempo seria necessário?
De acordo com esse planejamento vertical, o estudante de Medicina poderá se preparar para o desenvolvimento de uma visão integral e multidisciplinar do ser humano, no contexto da sexualidade, durante toda a sua formação acadêmica.

Deveria ser uma matéria isolada ou incluída na Urologia ou Ginecologia?
Em relação ao modelo aqui apresentado, releva repetir que os objetivos da Sexualidade Humana devem perpassar todas as disciplinas que podem abarcá-los, sem restringi-los à Urologia ou Ginecologia. Cabe salientar que, se os conhecimentos sobre sexualidade não estiverem apoiados sob diversas perspectivas do saber, a mensagem isolada tende ao enfraquecimento. Da mesma forma, as contradições de pontos de vista nas mensagens recebidas de diferentes disciplinas podem dificultar uma visão mais íntegra do aluno, sobre o ser humano. Para finalizar, os objetivos da Sexualidade Humana podem servir de inspiração para o desenvolvimento pessoal e profissional do corpo docente do curso de Medicina e/ou abrir espaço nos objetivos curriculares de cada disciplina que se relacione com a temática sexual para receber professores convidados que preencham essa lacuna.

 

MARIA HELENA VILELA
Enfermeira de saúde pública, educadora sexual, diretora do Instituto Kaplan (Brasil)

O currículo precisa contemplar os aspectos históricos para que se possa compreender o contexto atual, o conceito de sexo e sexualidade, o corpo erótico e reprodutivo, relação de gênero, saúde sexual, disfunções e dificuldades sexuais e seus respectivos tratamentos e por fim o treino da comunicação, focando os limites e abrangência do papel do médico nesta área como educador sexual. Este curso deveria ser uma matéria isolada, pois, isto deve ser uma aprendizagem para todos os médicos. Quanto à carga horária, esta não pode ser menor do que 40 horas.

 

MIGUEL RIVERO (Argentina)
A educação, em geral, deve adequar-se dinamicamente aos processos de evolução e modernização da HUMANIDADE. A formação dos profissionais médicos não pode estar distanciada deste conceito geral, dentro do marco de equilíbrio que se adeque à MEDICINA como ciência e arte. Nos últimos anos, a MEDICINA da REPRODUÇÃO HUMANA avançou notavelmente. A proposta sería analisar as vantagens de contar com uma MATÉRIA independente que contemple todos os aspectos atualizados relacionados com a FERTILIDADE e a SEXUALIDADE em ambos sexos, além disso, se poderia incluir um módulo destinado às DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS. Esta matéria poderia ser ministrada concomitantemente com as disciplinas de UROLOGIA e GINECOLOGIA, o que facilitaria o CURSO da mesma. Este curso deveria ter duração de duas semanas, conforme o seguinte descritivo.

Matéria teórico-prática:
Módulo I - Saúde Sexual. Sexualidade Feminina
Módulo II - Sexualidade Masculina
Módulo III - Reprodução Humana. Fator Masculino
Módulo IV - Fator feminino
Módulo V - Tratamentos em Reprodução
Módulo VI - Doenças Sexualmente Transmissíveis

 

OTTO HENRIQUE TORRES CHAVES (Brasil)
Imagino que este deveria ser um curso como o que disponibilizamos na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, onde sou Professor Titular. Tanto no curso de Medicina, como na Fisioterapia e Terapia Ocupacional, são dadas duas aulas de Sexualidade Humana (2 horas/aula) por um sexólogo e 2 aulas de Disfunção Erétil (2 horas/aula ) por um Urologista com interesse na área. Justifica as 4 horas/aula o fato de ser um assunto que não tem cadeira própria e é incluído por mim na matéria de Urologia, que tem uma carga horária pequena para toda a matéria. Durante estas aulas, disponibilizamos para a literatura especializada e o acompanhamento do ambulatório de Andrologia e Sexologia para os interessados.

Devo salientar que o interesse dos alunos por esta área é muito grande, e acho muito importante que se discuta a inclusão do assunto como matéria isolada, com uma carga horária adequada ao currículo que atenda a demanda de informação dos alunos.

 

SONIA DAUD
Psicóloga, psicodramatista, terapeuta sexual, Coordenadora do curso de pós-graduação da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Brasil)
Há tempo, tenho constatado que o médico sente a necessidade de receber formação para trabalhar com a sexualidade, pois o curso de medicina não oferece essa matéria. Nas últimas décadas, nos cursos de pós-graduação, há uma demanda de alunos vindos de algumas especialidades médicas, especialmente, da Ginecologia e da Urologia, assim como dos cursos de Psicologia. Os médicos se queixam da ausência desta matéria. No Brasil, nossos profissionais, de uma forma geral, não estão preparados para falar ou orientar seus clientes nessa área. Na maioria das vezes, ficam constrangidos, não sabem ao certo se serão adequados ou não, então preferem dar orientações socialmente aceitas e comuns. Se o Ministério da Educação me pedisse para desenvolver um curso de sexualidade dentro do curso de medicina, antes, eu teria que fazer algumas perguntas, como: Para quem? Por quanto tempo? Com qual carga horária?

Se o curso fosse aplicado no programa geral básico da medicina, seriam noções básicas com 100horas de aula. Caso fosse para residentes da Ginecologia e Urologia, seriam necessárias 200horas de aula. O objetivo seria formar o médico de qualquer especialidade, para que pudesse interagir com seu paciente, tanto na orientação como no tratamento.
Os eixos da programação que eu elegeria seriam:

I - Educação e sexualidade
II - Aspectos orgânicos como substrato da sexualidade
III - Aspectos sociais da sexualidade
IV - Aspectos psicológicos associados à sexualidade
V - Supervisão teórico-prática

 

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