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Volume I - Número 4 - Abril / Junho - 2005Disfunções Sexuais e Problemas Cardíacos
AHE traz dois artigos que tratam das diferentes implicações da
disfunção sexual em homens e mulheres com problemas cardíacos
MULHER
Salonia A; Briganti A, Montorsi P, Margonato A, Nappi RE, Barbieri L, Fantini GV, Rigatti P, Montorsi F. J Sex Med. 2004; 1:53-4. Abstr. 079. Suplemento 1. O objetivo deste trabalho é analisar as correlações cronológicas, epidemiológicas e éticas entre a disfunção sexual feminina (DSF) e pacientes portadoras de doença da artéria coronária oclusiva (DACO), assim como, compará-las com a função sexual de mulheres na população em geral.
Material e Métodos:
Trinta e nove pacientes consecutivas, apresentando angina pectoris (idade: 57,87 + 10,91 anos (média + desvio padrão) após serem submetidas à avaliação morfológica e funcional das artérias coronárias com uma angiografia coronária, entraram no presente estudo multicêntrico, em andamento. Todas as pacientes informaram: a história geral e sexual detalhada; o Índice da Função Sexual Feminina (IFSF), a Escala de Angústia Sexual Feminina (EASF) e o Inventário de Depressão de Beck; 102 mulheres consecutivas (idade: 54 + 0,58 anos (média + desvio padrão) foram chamadas para um check-up de rotina na clínica de obstetrícia e ginecologia, completaram o IFSF e foram comparadas com as pacientes portadoras de DACO. Foi realizada a análise estatística com o teste de Student para dados não pareados e de Spearman para análise de corrrelação.
Resultados:
A DSF foi evidente antes dos sintomas de doença cardíaca isquêmica em 10 de 39 pacientes (25,6%). Então, 10 de 12 pacientes (83,3%), dessa série, desenvolveram desordens sexuais antes da angina ou do infarto do miocárdio.
No Inventário de depressão de Beck 13/39 (33%) apresentaram depressão moderada, 4/39 (10%), depressão grave.
Quanto ao Índice de Massa Corporal, a correlação entre as pacientes com DACO e as do grupo controle (média + desvio padrão) foi: 25,45 + 4.79 vs 23,37 + 4,45 (p < 0.0001).
CORRELAÇÃO DOS ITENS DO ÍNDICE DE FUNÇÃO SEXUAL DAS PACIENTES COM DOENÇA DA ARTÉRIA CARDÍACA OCLUSIVA, EM COMPARAÇÃO COM AS PACIENTES DO GRUPO CONTROLE
IFSF |
Pacientes com DACO
|
Pacientes do Grupo Controle
|
Valor de p
|
|
mediana |
|
Desejo |
3.00 |
3.21 |
Ns |
Excitação |
3.17 |
4.10 |
0,002 |
Lubrificação |
3.90 |
4.00 |
Ns |
Orgasmo |
4.40 |
4.40 |
Ns |
Satisfação |
3.80 |
3.90 |
Ns |
Dor |
4.60 |
4.00 |
Ns |
TOTAL |
20.75 |
23.61 |
0,02 |
CORRELAÇÃO ENTRE DISFUNÇÃO SEXUAL FEMININA E ANGIOGRAFIA CORONÁRIA
Doença oclusiva |
Número de Pacientes
|
Porcentagem |
3 artérias coronárias |
1 |
8,3 |
2 artérias coronárias |
4 |
33,3 |
1 artéria coronária |
7 |
58,4 |
TOTAL |
12 |
100,0 |
Conclusões:
Esse relato preliminar sugere que a disfunção sexual é uma questão importante para a saúde de mulheres com doença arterial cardíaca oclusiva. Uma taxa significante de pacientes desenvolveu disfunção sexual feminina, em uma média de 62 meses (faixa de 12-108 meses) antes da doença cardíaca isquêmica.
* Tradução do resumo apresentado no 11º. Congresso da ISSIR – International Society for Sexual and Impotence Research, realizado em Buenos Aires, em outubro de 2004, com permissão do autor.
Disfunções Eréteis e Problemas Cardíacos - Homem
Por que o médico deve se interessar pela DE de seu paciente?
Harin Padma-Nathan* e Sidney Glina
A atividade sexual é uma parte importante na vida de muitos homens idosos (Gingell et al. 2002), assim como na vida dos pacientes com doenças cardiovasculares (Friedman 2000). Embora para alguns homens com DE esse problema não cause preocupação, para muitos, a disfunção é fonte de estresse mental, que afeta as interações com a família e colegas (NIH 1992) e tem um impacto negativo na qualidade de suas vidas (Abdo et al. 2000). Em 2002, uma pesquisa conduzida por uma sociedade britânica sobre impotência mostrou que 80% dos participantes indicou que sua disfunção erétil trazia algum tipo de dificuldade de relacionamento e 12% disse que a prevenia evitando estabelecer um vínculo (Jackson et al. 2002).
Como parte de um grande estudo continuado sobre a saúde sexual na segunda metade da vida, homens e mulheres com 40 anos ou mais responderam a um questionário sobre suas atitudes e crenças relacionadas ao sexo, relacionamentos e comunicação com seus médicos sobre a função sexual (Gingell et al. 2002). Embora 53% dos pesquisados tenham respondido que o sexo era importante em seus relacionamentos com suas parceiras e 15% revelou que tinha preocupação com sua vida sexual no ano anterior, menos de 7% relatou que seu médico perguntou sobre suas dificuldades sexuais nos últimos três anos. Quando perguntado “Você acha que o médico deveria perguntar aos seus pacientes sobre sua saúde sexual?”, 50% dos homens pesquisados responderam que sim. Novamente, houve uma considerável variação nas respostas dos homens dos diversos países, enfatizando a necessidade de haver uma sensibilidade para as preferências individuais dos pacientes.
Resultados de uma pesquisa nos Estados Unidos indicam que 90% dos homens americanos afetados pela DE não procuram por tratamento (Laumann et al. 1999, McKinlay 2000, Levine e Kloner 2000). Várias explicações têm sido sugeridas: eles não se interessam, podem ficar apreensivos com relação ao tratamento (devido à falta de informação, ou sentimentos de vergonha, ou porque raramente utilizam os serviços médicos), podem ficar influenciados pela preocupação da parceria a respeito do tratamento ou a falta de interesse, ou sua reticência pode estar baseada na crença das atitudes dos médicos em relação à disfunção erétil (Levine e Kloner 2000). Uma pesquisa recente com 500 adultos revelou que as percepções sobre as preferências e preconceitos dos médicos se constituem em uma barreira significativa para a busca do tratamento (Marwick 1999, Levine e Kloner 2000). Outro estudo encontrou que mesmo entre homens que já se consultam com um urologista, há barreiras significativas para conseguir o tratamento para sua disfunção. De 500 homens que estavam se consultando com urologistas por razões outras que não a DE, 44% tinha vivenciado a DE e não informara o seu médico. Desses, 74% mencionou que o motivo pelo qual não busca tratamento é a vergonha (Baldwin et al. 2000, Levine e Kloner 2000).
Seja qual for a explicação, o fato de que esses pacientes não perguntarem aos seus provedores de saúde sobre o tratamento significa que os médicos estão perdendo uma oportunidade para ajudar seus pacientes a alcançar uma melhor qualidade de vida – uma vez que tratar a disfunção erétil amplia - e muito - o prazer óbvio que os pacientes poderão obter de uma atividade sexual saudável. Estudos têm demonstrado que um tratamento bem sucedido para a DE está associado com uma melhora significativa na qualidade de vida (Willke RJ et al. 1998, Althof et al. 2001), com um impacto particular nos sintomas da depressão e da ansiedade (Paige et al. 2001). Em uma pesquisa sobre o tratamento com inibidor de PDE5 de homens com nível leve a moderado de depressão, como comorbidade, 76% que respondeu ao tratamento com sildenafila mostrou, pelo menos, 50% de redução no resultado na Escala de Depressão de Hamilton (versus 14% dos que não responderam ao tratamento) (Seidman et al. 2001). Dada a associação mútua reforçada entre depressão, disfunção erétil e doença cardiovascular (Goldstein 2000, Tan e Pu 2003), este achado tem uma significância importante para o cardiologista.
O tratamento da DE também demonstrou melhorar a adesão ao tratamento de condições concomitantes (Duttagupta et al. 2002), um benefício que pode ser especialmente importante para homens tomando medicamentos antihipertensivos e antidepressivos (freqüentemente, a disfunção sexual é mencionada como o motivo para a não adesão ou escapatória do tratamento com esses agentes) (Rosen 1997, Rosen et al. 1999). Uma análise retrospectiva dos padrões de utilização de medicamentos entre 1068 pacientes sugere que os pacientes aderem mais ao tratamento, após iniciarem a terapêutica com o inibidor de PDE5 para a disfunção erétil (Duttagupta et al. 2002). Os autores reviram o número de prescrições solicitadas para quatro tipos de medicações: antidepressivos/antiansiolíticos, diabetes, agentes para controlar dislipemia e para insuficiência cardíaca congestiva/doença da artéria coronariana/doença cardíaca. Foi encontrado que houve um aumento no uso de comprimidos para todos os quatro tipos de drogas, achados similares para as drogas que se acreditava contribuíam para a disfunção erétil e aquelas que tinham efeito fraco ou neutro na DE, levando os autores a concluir que a avaliação e o tratamento da DE parece aumentar a adesão para os outros regimes medicamentosos, independentemente de qualquer associação significante dessas medicações com a melhora da função sexual (Duttagupta et al. 2002).
Informar os pacientes sobre os efeitos dos fatores de risco cardíaco na função erétil pode motivá-los a aderir às mudanças no estilo de vida recomendadas para diminuir esse risco. Para alguns pacientes, a possibilidade de melhorar a função erétil – ou pelo menos, ajudar a interromper o declínio – pode proporcionar uma motivação mais forte para evitar fatores de risco, como tabagismo, hipertensão, níveis de lípides desfavoráveis, obesidade, sedentarismo e alcoolismo crônico.
Entre 1995 e 1997, os pesquisadores do MMAS (Massachusetts Male Ageing Study) acompanharam entrevistas com homens que tinham relatado não ter tido disfunção erétil, diabetes, doenças cardíacas ou uso de medicamentos relacionados, durante a pesquisa base feita em 1987-1989. Encontraram que a DE e doença coronária compartilhavam “determinantes de comportamento modificáveis” específicos neste grupo de homens. Quando a análise foi restrita aos 513 homens que, durante o estudo, continuaram relatando não ter diabetes ou doença coronária, tabagismo, este fato foi associado ao aumento marcante de risco em desenvolver DE, de moderada a grave, durante o período entre a pesquisa inicial e a posterior. O seguimento (24% x 14%, ajustado por idade e covariantes, p = 0,01) (Feldman et al. 2000). Outras formas como exposição ao tabaco e exposição passiva ao fumo também foram um preditor significante de DE incidente, assim como o aumento do Índice de Massa Corpórea e a taxa de risco coronário. Foram relatadas associações prospectivas fracas com DE incidente com hipertensão e consumo de colesterol e gorduras insaturadas (Feldman et al. 2000).
Infelizmente, embora faça sentido estimular os pacientes a evitarem esses fatores de risco, os achados iniciais relacionados ao efeito da modificação, a longo prazo, desses fatores, são um tanto desencorajadores. Análise posterior dos dados do MMAS indicou um benefício evidente para o início de um programa de exercícios corporais, mesmo na meia idade: homens que tinham tido uma vida basicamente sedentária e que estavam dispendendo pelo menos 200 kcal/dia em atividade física moderada ou intensa (caminhar 3 vezes por semana durante 30 minutos), mostraram uma vantagem significativa sobre aqueles que permaneceram sedentários, em termos de redução do risco para a DE (p = 0,01). Não foi encontrado benefício correspondente à perda de peso, ou a mudanças no consumo de cigarros e álcool. Os pesquisadores levantaram a hipótese de que a meia idade pode ser muito tarde para reverter o dano associado à obesidade, fumo ou consumo excessivo de álcool. Sugeriram adotar estilo de vida saudável precocemente como uma melhor abordagem para a redução do peso da DE associada ao envelhecimento (Derby et al. 2000).
Entretanto, deve-se notar que essas análises basearam-se em casos recentes de DE, e não no efeito da mudança de comportamento em casos identificados. Mesmo na ausência de dados epidemiológicos que documentem o resultado, faz sentido encorajar os pacientes para tentar eliminar ou reduzir qualquer hábito que possa contribuir para a disfunção erétil, assim como usar a evidência deste estudo para reforçar os benefícios gerais de um programa saudável de exercícios.
Para os pacientes que têm sido tratados para a DE, há dados encorajadores relacionados aos efeitos do controle sobre os fatores de risco associados, os quais podem ser usados para melhorar a adesão. Embora os fatores não possam ser controlados ou avaliados independentemente, a combinação da modificação dos fatores de risco com o tratamento por inibidores de PDE-5 forneceu uma taxa geral de sucesso de 82% (ereção rígida, para a penetração vaginal, e duração suficiente para permitir a ejaculação) em um grupo de 521 homens (idade média de 59 anos) com DE (com taxa de falha à relação sexual prévia de > 50%), com pelo menos 6 meses de duração e fatores de riscos orgânicos (Guay et al. 2001, McCullough 2002). Complementando o tratamento médico para os fatores de risco (como hipertensão, hipogonadismo e substituição de drogas que se acreditam interferir na função sexual por outra sem efeitos colaterais), os pesquisadores encorajaram os pacientes a parar ou a reduzir o fumo e limitar o consumo de álcool a uma dose por dia, nos dias em que os inibidores de PDE-5 eram utilizados; e a duas doses por dia, nos outros dias (McCullough 2002). Guy et al. (2001) enfatizaram que a atenção adequada aos fatores de risco é importante para resultados ótimos.
Geralmente, em qualquer consulta, o médico tem grande oportunidade para identificar pacientes com disfunção erétil, bastando apenas perguntar. Sua associação com doença cardiovascular aumenta a importância desta descoberta. Ao dispender um tempo para investigar a vida sexual, educar os pacientes sobre os riscos cardíacos reais da atividade sexual e receitar o tratamento de primeira linha para a DE, quando apropriado, os médicos podem propiciar benefícios que vão muito além do impacto direto óbvio na qualidade de vida de seus pacientes - melhora da vida sexual, auto-estima e relacionamentos com seus parceiros. O esforço pode ser recompensado em termos da abordagem da queixa inicial – tanto melhorando a adesão, quanto os efeitos inespecíficos relacionados à qualidade do relacionamento médico-paciente e a manutenção de sua qualidade de vida.

Harin Padma-Nathan - Professor Clínico de Urologia na Keck School of Medicince da University of Southern California e Diretor da Male Clinic, em Beverly Hills, Los Angeles, Estados Unidos |
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