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Volume I - Número 2 - Outubro/Dezembro - 2004
A importância da interdisciplina
(médico/psicólogo) na reprodução assistida
Sidnei Roberto Di Sessa*
Nelson Antunes Filho
Vivemos em uma sociedade padronizada, onde valores e conceitos são transmitidos de forma bastante intensa. Estes, muitas vezes cristalizados, são passados de geração a geração sem receber qualquer tipo de questionamento significativo, que possibilite encontrar outra verdade.
A maternidade/paternidade é uma destas questões, muito presente em todos, desejada e cobrada por familiares e amigos, de tal modo que parece tão normal que os valores ou limites entre as pessoas não são respeitados.
A dificuldade de um casal para engravidar e/ou a descoberta de que há algum tipo de infertilidade faz parte de um processo muito sofrido, incluindo sentimentos de impotência que interferem na capacidade de seguir adiante para concretizar suas expectativas. Isto influi muito na vida de ambos alterando de modo significativo a estima, trazendo sentimentos de culpa, incapacidade, raiva, depressão, decepção, angústia, frustração, tristeza, ansiedade, distúrbios sexuais e de relacionamento, comportamentos obsessivos e, dependendo da forma como eles lidam com este problema, somatizações variadas.
A idéia da infertilidade normalmente se generaliza e os casais sentem-se inférteis para a vida como um todo, por exemplo: para o trabalho, para a vida social, familiar ...
Quando os casais chegam aos consultórios, seja do médico, seja do psicólogo, muitas vezes, acrescido ao sofrimento da infertilidade, trazem um grande sentimento de frustração devido ao insucesso das tentativas anteriores. Neste momento, necessitam ser ouvidos, compreendidos e acolhidos tanto clinica como psicologicamente.
Nesta fase, o acompanhamento psicológico é muito importante para trazer alívio a essas questões.
Hoje em dia, graças aos avanços da ciência, a possibilidade de se gerar o tão sonhado filho é muito grande.
No entanto, deve-se ter em mente que, muitas vezes, os tratamentos são longos, realizados por etapas e o número de mulheres que engravidam por ciclo é baixo (cerca de 30%, ou seja, a cada dez, apenas três engravidam) e, para que se obtenha sucesso, algumas vezes, o procedimento necessita ser repetido (Masetti 1994). Embora os casais estejam cientes de tudo isso, a cada insucesso, progressivamente ficam arrasados.
Segundo observações de médicos esterileutas do Instituto H.Ellis, durante um tratamento, em média 45% dos pacientes conseguem resultado com intervenção de alta complexidade (fertilização in vitro (FIV) ou injeção intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI)), 35% com intervenções de baixa complexidade (coito programado (CP) e/ou inseminação artificial (IA), com indução ovulatória), 20% não conseguem a gravidez.
Sentimentos negativos dos mais variados estão sempre presentes neste momento e necessitam ser acolhidos e elaborados de forma correta e construtiva tanto técnica como emocionalmente, para que o casal continue estruturado e, assim, estimulado para prosseguir no tratamento e aumentar suas chances de sucesso. Estatisticamente, as possibilidades de uma gravidez aumentam com a repetitividade, chegando a 70% com quatro tentativas (Masetti 1994).
Outro fator a ser mencionado é que, em geral, os casais preferem viver este problema sozinhos, não gostam de partilhá-lo com amigos, nem familiares, para evitar comentários, expectativas e preconceitos. Isto mostra o quanto é solitário todo o processo que está sendo dividido, na maior parte dos casos, apenas com o médico.
Todo casal que procura ajuda precisa entender que o problema é de ambos, e não só do portador da dificuldade. Por este motivo, é de fundamental importância sua integração com a equipe de médicos e psicólogos para facilitar a busca conjunta da solução do problema. Assim, a relação fica fortalecida, o casal aumenta sua auto-estima e percebe que consegue enfrentar os momentos mais difíceis do processo.
Observa-se que as mulheres são mais persistentes na busca do tratamento. Por outro lado, os homens, frustrados, com o tempo, acabam encontrando um modo de fugirem do processo, com isso, elas se sentem abandonadas. Uma maneira de harmonizar o casal, trazendo de volta o homem, é orientá-lo no sentido de lidar melhor com limites e tratar de forma menos racional suas emoções.
Quando a gestação ocorre, o acompanhamento psicológico deve continuar para que os casais sintam-se seguros e informados. Desse modo, podem controlar melhor suas ansiedades e inseguranças, manter um bom equilíbrio emocional, apoiando-se mutuamente, não só para uma boa gestação como também para um bom parto.
Para tanto, a psicologia dispõe de um vasto ferramental terapêutico para auxiliar estes casais de forma segura e eficaz, como por exemplo a dessensibilização sistemática, onde gradualmente, dentro de um contexto apropriado, o casal vai enfrentando e vencendo seus medos e fantasias, adquirindo bem estar e tranqüilidade.
Por outro lado, quando a gestação não ocorre após várias tentativas infrutíferas os motivos para o casal desistir do tão sonhado filho podem ser: término dos recursos financeiros, não querer passar novamente pelo processo dolorido, se conformarem com a situação e buscar outras alternativas, como por exemplo a adoção.
Mesmo nesta circunstância, a abordagem psicológica também é importante, para ajudar o casal a elaborar a perda do filho via reprodução e a construir o ganho do filho via adoção.
A interdisciplina é uma conduta adequada e segura, que oferece ao casal e à equipe de médicos e psicólogos todo o suporte necessário para aumentar as possibilidades de conquista e diminuir muito o sofrimento dos casais que procuram a solução de sua infertilidade.
Ainda hoje, os casais atribuem um grande significado na maternidade/paternidade, pois ter um filho representa a consagração da identidade pessoal e do casal, a perpetuação da espécie, como também a complementação de suas vidas, estimulando o amor e o relacionamento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Masetti, M. Fertilização in vitro: alguns aspectos psicológicos sobre o processo. São Paulo: Equipe de Reprodução Humana do Hospital Israelita Albert Einstein, 1994.

Sidnei Roberto Di Sessa
Psicólogo e Terapeuta Sexual do Instituto H. Ellis
Membro Efetivo da ABEIS
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Nelson Antunes Filho
Ginecologista e Esterileuta do Instituto H. Ellis
Chefe do Departamento de Ginecologia da Faculdade de Med. ABC
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