|
|
|
Volume I - Número 2 - Outubro/Dezembro - 2004
Impacto econômico da disfunção erétil
Hoje, o mercado brasileiro de medicamentos orais para disfunção erétil (DE) está em
torno de US$ 85 milhões e deverá crescer mais de quatro vezes nos próximos anos
Dr. Eduardo Bertero*
Com o advento das novas drogas orais para disfunção erétil, os profissionais da saúde, assim como o público em geral, passaram a preocupar-se com seu impacto econômico. Para esta análise devem-se considerar fatores epidemiológicos e médico-econômicos relacionados à DE. Alguns fatores têm sido demonstrados repetidamente sobre a DE, como sua prevalência alta; incidência relacionada à idade, caráter progressivo e subtratamento (NIH 1993).
Desde o advento do Viagra, em 1998, e mais recentemente do Levitra e Cialis, o faturamento da “indústria da Disfunção Erétil” no Brasil tem aumentado significativamente (Gráfico 1). Em 2003, esse faturamento foi de cerca de U$ 85 milhões, ou aproximadamente R$ 250 milhões. Com o lançamento de uma nova família de medicamentos para este fim, os inibidores da fosfodiesterase tipo V, vários aspectos relacionados ao custo-benefício do tratamento de DE, em comparação a outras modalidades de tratamento, como injeção intracavernosa e implante de prótese peniana, passaram a ser analisados.

Como as diversas terapias podem influenciar no orçamento doméstico do homem com DE.
• A psicoterapia sexual é conduzida, em geral, por médicos psiquiatras ou psicólogos com formação na área de saúde sexual. O custo pode variar de acordo com o número de sessões e o preço do profissional escolhido. Na média, será necessário um período de 6 meses, com duas sessões semanais.
• No caso das terapias orais medicamentosas, levando em consideração as dosagens médias mais comercializadas no mercado brasileiro, o custo “cheio” ou sem desconto por uma caixa de quatro comprimidos de Cialis, Levitra e Viagra é de R$127,42, R$107,79 e R$106,20, respectivamente. Considerando um homem médio brasileiro, casado, que tenha duas a três relações sexuais por semana (Abdo 2002), o custo mensal de seu tratamento será de R$ 254,84, R$ 215,58 ou R$ 212,40, se utilizar Cialis, Levitra ou Viagra, respectivamente. Ao final de um ano, este homem terá gasto R$ 2880,00, R$ 2448,00 ou R$ 2400, respectivamente. Ao final de cinco anos, terá gasto mais de R$ 12 mil. De fato, não é nada barato, ainda mais se considerarmos, que no nosso país, diferentemente, de outras nações desenvolvidas, o Estado não reembolsa, ou tampouco auxilia nestes custos.
• No caso das injeções, o custo de Caverject 10 mcg é de R$43,64. O tratamento por meio da auto-injeção, com duas aplicações semanais de Caverject, é ainda mais dispendioso, sendo de R$ 349,12 por mês, R$ 4189,00 por ano e R$ 20947,00 em 5 anos.
• O custo do implante de uma prótese peniana pode variar muito, porque depende dos diferentes modelos existentes de prótese e dos custos hospitalares. De uma maneira global, o implante de uma prótese nacional ou nacionalizada do tipo maleável ou semi-rígida, em um hospital de padrão médio, considerando os custos de Hospital-Dia, anestesista e honorários médicos, ficaria em torno de R$ 7 mil a R$ 10 mil.
|
O impacto econômico de uma doença não está limitado apenas ao seu custo de tratamento ou diagnóstico. No caso de disfunção erétil, tal impacto pode também ser medido pela perda de tempo de trabalho, diminuição da produtividade, efeito negativo na parceira, na família e companheiros de trabalho (Shabsigh et al. 1999). Um bom exemplo é o impacto que a depressão causa no homem com DE (Shabsigh et al 1998). O estudo MMAS mostrou a correlação entre DE e depressão; outros estudos mostraram que tratando DE consegue-se melhorar a depressão, diminuindo assim o impacto negativo na vida deste homem (Feldman et al. 1994, Shabsigh et al. 1998). Atualmente, no Brasil temos cerca de 25 milhões de homens com algum grau de DE e que são candidatos a alguma forma de terapia (Abdo et al. 2000, Moreira Jr et al. 2001, Abdo 2002). É certo que a grande maioria destes homens irá escolher uma pílula como primeira opção para tratar o seu problema, principalmente, pela sua facilidade de administração, espontaneidade de ação, eficácia, baixos efeitos colaterais e sua reversibilidade (Wysowski e Swann 2003). No Gráfico 2, podemos comprovar o crescente aumento na venda em unidades de medicamentos orais na terapia de DE. As injeções intracavernosas e intrauretrais tornaram-se a segunda linha de tratamento, enquanto que o implante de prótese peniana, a terceira linha de terapia (II Consenso Brasileiro de Disfunção Erétil 2002). A terapia sexual pode ser utilizada sozinha, ou em combinação com alguma outra forma de terapia já citada.
O homem moderno médio brasileiro, arrimo de família, é quem tem que arcar com os custos da terapia para DE, aliás, nada desprezíveis. Já atendi vários homens na instituição pública que, ao tomarem conhecimento do preço dos produtos atualmente disponíveis, declararam: “Doutor pode ficar com a receita que não tenho condições de comprar este medicamento”. Temos de lembrar que a grande maioria dos homens que nos procuram tem uma média de idade que já coincide com a presença de outras comorbidades, como hipertensão arterial, diabetes e coronoariopatias, que também precisam ser tratadas e também têm um custo elevado. Nestes casos, muitos deles acabam optando por tratar as comorbidades e não a DE, diminuindo assim, sua qualidade de vida. PROJEÇÃO DO MERCADO
O impressionante potencial do mercado brasileiro explica a atenção dada pela indústria farmacêutica em geral a DE. No Brasil, a população de homens com DE, de moderada a completa, é de aproximadamente 11 milhões (Moreira Jr et al. 2001 e 2003). Infelizmente, de acordo com alguns estudos populacionais, apenas 10% destes homens procuram auxílio médico e serão, de fato, tratados. Pela projeção realizada pela própria indústria dos medicamentos para o ano de 2004, de vendas de U$ 85 milhões, estaremos tratando algo em torno de 600 mil homens, o que corresponde a apenas 5% do total de homens com DE. Considerando o mesmo estudo de Moreira Jr et al., e aplicando-se a toda população de homens com DE no Brasil (leve, moderada e completa), a projeção seria de cerca de 25 milhões de homens atingidos. Neste caso, estaríamos tratando apenas 2,4% de homens com DE no nosso país. Se levarmos em conta os números aplicados ao preço por ano para uma terapia oral, como o Viagra por exemplo, teríamos uma comercialização de mais de U$ 1 bilhão, caso todos os brasileiros com DE de moderada a completa fosse tratados. Em outras palavras, temos uma lacuna de pacientes não tratados de quase 10 milhões, que sofrem de DE de moderada a completa que poderiam fazer uso de algum tipo de medicação.
Estes pacientes não tratados acabam por alimentar a esperança e a guerra entre as três indústrias que predominam no mercado, Pfizer, Lilly e Bayer-GSK. De fato, analistas econômicos e financeiros recentemente fizeram uma projeção para os próximos quatro anos para o mercado mundial da indústria farmacêutica e concluíram que o mercado de DE crescerá mais de quatro vezes, alcançando vendas em quase 4 bilhões de dólares anuais no mundo (Rosen et al. 1999). Além de desejarem aumentar a venda de seu produto e conseguir abocanhar uma boa fatia do mercado, estes fabricantes aspiram ampliar o mercado de homens que compram os medicamentos. Isto de fato vem ocorrendo ano após ano, principalmente após o lançamento do Viagra em 1998, graças a várias campanhas de publicidade e patrocínios de Congressos médicos pelo Brasil afora neste campo da sexualidade humana.
Outro ponto que deve ser levado em conta no nosso país e que difere de outras nações, como os Estados Unidos, é o fato da comercialização não necessitar de prescrição médica no Brasil. Isto muda, e muito, o relacionamento da indústria farmacêutica com os médicos. No nosso país, é dada muita importância ao comerciante direto dos produtos ou aos balconistas das farmácias, que acabam por exercer uma forte pressão no paciente durante a escolha do produto a ser comprado. Este dado é tão importante, que neste momento, no Brasil, o campeão de prescrições é o Cialis, mas o produto que mais vende ainda é o Viagra (dados de IMS de julho de 2004). CONCLUSÃO
Dados disponíveis até o presente momento permite-nos dizer que o impacto econômico da DE aumentou significativamente nos últimos cinco anos. As razões para este crescimento são: introdução de novos medicamentos na terapia de DE, introdução de terapia oral efetiva, aumento do número de campanhas publicitárias e educacionais. Por fim, nos próximos anos, é de se esperar um crescimento ainda maior do impacto econômico devido ao aumento da população idosa e seu envelhecimento (Shabsigh et al. 1999).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Abdo CH, Moreira Jr E, Fittipaldi JA. Estudo do comportamento sexual no Brasil (ECOS). Rev Bras Méd. 2000;57(11):1329-35.
Abdo CH. Perfil da população brasileira: resultado do Estudo do Comportamento Sexual (ECOS) do Brasileiro. Rev Bras Méd. 2002;59(4):250-7.
Feldman H, Goldstein I, Hatzichristou D, Krane RJ, McKinlay JB. Impotence and its medical and psychological correlates: results of the Massachusetts Male Ageing Study. J Urol. 1994;151:54-61.
II Consenso Brasileiro de Disfunção Erétil. São Paulo/Rio de Janeiro: BG Cultural/ Sociedade Brasileira de Urologia 2002; p.111.
Moreira Jr E, Abdo CH, Torres E, Lobo CF, Fittipaldi JA. Prevalence and correlates of erectile dysfunction: Results of the brazilian study of sexual behavior. Urology. 2001;58:583-8.
Moreira Jr E, Lobo CF, Diament A, Nicolosi A, Glasser DB. Incidence of erectile dysfunction in men 40 to 69 years old: results from a population-based cohort study. Urology. 2003;61:431-6.
NIH Consensus Development Panel on Impotence. JAMA. 1993;270:83-90.
Rosen R, Goldstein I, Heiman J, Korenman S, Lakin M, Lue T, Montague D, Padma-Nathan H, Sadovsky R, Segraves R, Shabsigh R. The process of care model for evaluation and treatment of erectile dysfunction. Int J Imp Res. 1999;11:59-74.
Shabsigh R, Klein L, Seidman S, Kaplan S, Lerhoff B, Ritter J. High incidence of depressive symptoms is associated with erectile dysfunction. Urology. 1998;52:848-52.
Shabsigh R, Alexandre L, Bay Nielson H, Fitzpatrick J, Melchior H. Economical aspects of erectile dysfunction. Proceedings of The International Conference on Erectile Dysfunction, Paris, 1999.
Wysowski D, Swann J. Use of medications for erectile dysfunction in the United States, 1996 through 2001. J Urol. 2003;169:1040-42.

Dr. Eduardo Bertero - Médico urologista especialista em disfunção erétil pela Universidade de Boston, EUA; Mestre em Urologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo; médico Urologista do Hospital do Servidor Público Estadual de SP; membro da “International Society for Sexual and Impotence Research” (ISSIR). |
AHE Comenta
O lançamento de medicações orais e efetivas, com o objetivo de tratar a disfunção erétil trouxe um grande impacto no mercado farmacêutico. A nova dimensão deste mercado específico trouxe, além das conseqüências conhecidas para a indústria e para o consumidor, um grande dilema para as fontes pagadoras, principalmente nos países desenvolvidos, onde tradicionalmente as medicações são subsidiadas.
Wilson et al analisaram o impacto do lançamento de sildenafil sobre o custo do manuseio da disfunção erétil para o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido. O número de pacientes atendidos com disfunção erétil aumentou de 79.880 em 1997 para 257.984 em 2000. O custo decorrente deste atendimento subiu neste período de 29, 4 milhões de libras esterlinas para 73,8 milhões. Em 1997 os principais gastos foram com psicoterapia (30,7%), consultas (20,2%) e injeções intracavernosas (26,6%). Em 2000, os principais gastos foram com consultas (32%) e prescrições com sildenafil (26,6%).
A maciça divulgação destas medicações aumentou a procura dos pacientes e isto gera um grande encargo financeiro naqueles países. No próprio Reino Unido a prescrição da sildenafila só pode ser feita para pacientes com algumas doenças, como por exemplo o diabete e com um número restrito de pílulas por mês.
Os Editores |
|