SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA

 
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VEJA AQUI OS ARTIGOS DESTA EDIÇÃO:

Edição 02 - Outubro/Dezembro - 2004


Cartas do leitor
Veja aqui as cartas enviadas pelos leitores
Disfunção Erétil
Impacto econômico da disfunção erétil
Debate:
Alongamento Peniano

Será que esta é uma cirurgia tão simples quanto a plástica de mama em mulheres?
Reprodução Humana
Papel da acupuntura no tratamento da infertilidade masculina

A importância da interdisciplina (médico/psicólogo) na reprodução assistida

Controle de qualidade de laboratórios de Reprodução Humana
Sexualidade Feminina
Definições e Classificações das disfunções e das respostas sexuais das mulheres, ao longo dos tempos
Curiosidade Urológica
Incrível causa de Uretrorragia
 

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Volume I - Número 2 - Outubro/Dezembro - 2004

“Qual é o tamanho normal, doutor?”
O artigo de Carlos da Ros, publicado na primeira edição de Arquivos H. Ellis (julho 2004), sobre antropometria peniana, motivou diversos profissionais do País a debaterem a validade, ou não, dos vários procedimentos para alongamento peniano. Confira a opinião dos especialistas:

HENRIQUE CHVAICER (urologista, Rio de Janeiro): Sobre a questão do tamanho do pênis, vejo o assunto da mesma forma como vejo as cirurgias plásticas estéticas, onde não interessa o que é normal comparando com a média das pessoas, mas o “normal” para a auto-satisfação de quem procura o cirurgião.

GERALDO FARIA (urologista, Rio Claro-SP): Ao contrário das cirurgias plásticas estéticas, as técnicas cirúrgicas para aumento do pênis (em homens normais) não demonstraram até hoje qualquer eficácia. Ao contrário, o que temos visto em nossos consultórios, são pacientes com graves seqüelas resultantes destes procedimentos. Portanto, a comparação com as cirurgias estéticas não é adequada.

HENRIQUE CHVAICER: Em nenhum momento defendi a cirurgia de alongamento, a qual pessoalmente vejo muito mais como custo do que como benefício. É muita cirurgia para pouco resultado e no final acaba não compensando - nem para o paciente, nem para o cirurgião. O que defendo é o direito de o paciente se sentir desconfortável com o tamanho do seu pênis, nariz, orelhas de abano, etc, e procurar uma ajuda médica. É comum vermos o médico dizer que não existe solução para aquilo, e aconselha o paciente a se conformar com a sua situação. Para evitar que estes pacientes acabem caindo nas mãos de quem opera alongamento, prefiro recomendar o uso de um extensor de resina modelado por um paciente meu, usuário. (...) Por incrível que pareça, alguns pacientes indicam melhora e satisfação com os resultados deste extensor, embora também haja quem comente a ausência de resultados, o que aliás é muito comum na prática da medicina, que não é uma ciência exata. Complicações ocorrem em praticamente quaisquer cirurgias, até mesmo prostectomia, hernioplastia, etc. Se por um lado, nos consultórios são vistos casos de complicações, por outro, não se vêem casos aonde não houve complicações. Da mesma forma que não se vêem trabalhos mostrando bons resultados com o alongamento peniano, também não se vêem trabalhos mostrando que o alongamento não dá resultados. Espero que este espaço continue servindo para a troca de opiniões que este tema, bastante polêmico, desperta.
CARLOS DA ROS (urologista, Porto Alegre-RS, e autor do artigo sobre antropometria peniana da edição anterior de AHE): Os procedimentos de alongamento peniano (cirurgia, extensores, fisioterapia, etc.) não têm nenhum respaldo científico. Não existe trabalho (metodologicamente falando) que comprove resultados positivos. A literatura é abundante em trabalhos que mostram as falhas dos resultados bem como as complicações destes procedimentos. E como todos somos membros de uma associação, científica, acredito que devamos nos basear sempre no que a ciência nos mostra e não em opiniões próprias, que efetivamente não têm valor científico.

CARLA ZEGLIO (psicóloga, São Paulo-SP): Como psicóloga, não posso me calar diante dos males psicológicos que tais cirurgias ocasionam a possíveis pacientes (normais) meus! Certamente comparação com cirurgias estéticas não é adequada. Muito mais fácil um processo adaptativo com relação ao tamanho do pênis do homem e a tristeza que ele possa sentir, do que um processo de depressão ocasionado por uma cirurgia mal sucedida. Baseio meu trabalho na psicologia como ciência... Não é “achismo” - me valho do uso de técnicas empiricamente comprovadas. Trabalho e certamente obtenho resultados. Com base na mensagem do Da Ros, somos membros de uma associação científica e temos a obrigação de basearmos nosso trabalho, em qualquer área da saúde que atuemos, em ciência.

CARLOS CAIROLI (urologista, Porto Alegre-RS): Concordo com o Da Ros. Devemos ter muito cuidado com o assunto, que se presta ao charlatanismo.

EDUARDO BERTERO (urologista, São Paulo-SP): Este assunto realmente é polêmico. Quando o paciente entra aqui e pede uma solução para o seu "pequeno pênis", eu brinco que adoraria ter uma cirurgia simples, confiável, eficaz e segura. Ganharia rios de dinheiro. No entanto, como já foi dito aqui, não podemos confiar em experimentos anedóticos e empíricos. Prezamos a ciência e bem feita! De uma certa maneira, até concordo com o Henrique, pois o homem deve ser livre para saber o que é bom ou não aos seus olhos, mas não devemos esquecer que o pênis tem uma função que deve ser preservada: a erétil. No momento, não temos nada a oferecer, a não ser tratamento ou aconselhamento psicológico na maioria dos casos.

RONALDO BRAGA (cirurgião, Rio de Janeiro-RJ): Concordo plenamente com os que são contrários ao procedimento, uma vez que na maioria das vezes acaba ocorrendo uma iatrogenia, piorando ainda mais o problema do paciente. Para exemplificar, cito o caso de um rapaz de 23 anos, que foi atendido por um médico com queixas de ter o pênis pequeno em repouso. Foi sugerida uma cirurgia onde, pasmem, foi implantada uma prótese peniana. Após aproximadamente um ano, este paciente me procurou com dores na região crural tendo-se constatado um processo infeccioso crônico. Foi tratado com substituição da prótese e antibioticoterapia. Após três anos, o paciente está com sinais de fragilidade na extremidade distal do corpo cavernoso esquerdo com possibilidade de extrusão da prótese a médio prazo, o que leva a uma nova cirurgia para reforço da túnica. Isto mostra o quanto é importante a orientação correta que o especialista deve fornecer ao seu paciente para demovê-lo da idéia dos "tratamentos milagrosos".

EDUARDO LOPES (urologista, Salvador-BA): Este tema é, e sempre será, polêmico. Todos ficamos tentados a emitir opinião. Nós que trabalhamos em profissões, cujo exercício, está fundamentado em dados cientificamente estabelecidos, não apoiamos "coisas empíricas". Isto é o óbvio! Devemos é fazer estudos para provar isto. Falar somente não basta, nem para nós nem para os pacientes. Eles ouvem, saem e não voltam mais. No entanto, sou contra o tratamento preconceituoso do tema, e tenho lutado no sentido de desmistificar e quebrar os tabus que envolvem a discussão do aumento peniano, etc. Toda vez que alguém comenta o assunto, aparecem dezenas de pessoas "enterrando" a discussão. Para mim fica a dúvida: por quê não aparecem trabalhos éticos, bem conduzidos e realizados nas nossas instituições de pesquisas demonstrando ou não se determinada técnica ou aparelho funciona ou não? Seria bom até para evitar a exploração comercial que é exercida inescrupulosamente por alguns. Chamei a atenção para isto no artigo "A caixa preta da Urologia", publicado no Boletim de Informações da Urologia (SBU) em 2003. Pelo que sei, apenas o nosso saudoso amigo Walter Bestane estava desenvolvendo um estudo com um extensor peniano como tema da sua tese de doutorado (USP). Infelizmente, não pôde concluir. Por quê o Ministério da Saúde registrou, como aparelho médico, o extensor "jes extender" e o liberou para uso? A nossa Sociedade Brasileira de Urologia foi ouvida? Por que nenhum colega dentro de uma instituição de pesquisa não estuda e publica os resultados deste ou de outros aparelhos, mesmo que seja para confirmar o que já imaginamos? Seria ótimo para todos nós. Teríamos dados científicos para afirmar que não funciona e até proibir a venda! Os americanos criaram até uma associação, se não estou enganado, chamada de "Academia Norte-Americana de Cirurgiões Plásticos do Pênis". Fazem parte dela diversos profissionais com as mais altas titulações científicas. Porque a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) ou a ABEIS – Associação Brasileira de Estudo da Inadequação Sexual não discute o assunto nos seus congressos? Por quê não convidam "estes" e "outros" titulados para discutir o assunto? Faço esta pergunta aproveitando a participação do prezado colega, membro da ABEIS, e chefe do Departamento de Andrologia da SBU, o nosso estimado Geraldo Faria. Seria ótimo discutir estes assuntos mesmo que sob o tema "controvérsias em urologia" ou "o lado empírico da urologia". Não sei se o título teria importância ou se a discussão deva ser em mesa redonda, quadrangular ou retangular. No entanto, seria importante para todos que constantemente recebemos pacientes com este tipo de queixa, que a discussão tivesse a chancela das nossas entidades científicas. Pois, atualmente, com a nossa atuação, estamos apenas empurrando os pacientes para "os braços" de outros "especialistas" que fazem tudo isto abertamente e, ainda, tiram uma de "cientistas". Tomei conhecimento recentemente, de que em alguns estados (e São Paulo é o carro-chefe), substâncias usadas por cirurgiões plásticos para preenchimentos estéticos estão sendo aplicadas no pênis, com a finalidade de engrossá-lo.

GERALDO FARIA: Esta dita Associação de Cirurgiões do Pênis não tem qualquer representatividade. Não há "professorais" em seus quadros. Seu associado brasileiro tentou realizar há cerca de um ano um congresso no Rio de Janeiro e desistiu um mês antes do evento pois não recebeu qualquer apoio de entidades éticas e da indústria farmacêutica. Nosso colega Cláudio Telöken nos informou recentemente que quis realizar um estudo com extensores em sua instituição e a empresa fabricante, quando soube que seria um estudo sério recolheu os aparelhos que havia disponibilizado para a pesquisa. Quanto a discussão do assunto, em nenhum momento temos deixado de incentivar que o tema faça parte de nossas Jornadas e Congressos. Já foi incluído em um PTU transmitido para todo o país. Ainda há uma semana, em Sorocaba, esse assunto fez parte do programa científico e despertou grande interesse da platéia. Leonardo poderá dar o seu depoimento sobre a discussão. Ainda é importante lembrar que a nossa posição como Departamento de Andrologia da SBU não é isolada. Veja no site da AUA a posição oficial dos urologistas americanos sobre o tema.

LUIZ OTAVIO TORRES (urologista, Belo Horizonte-MG): Não posso também deixar de dar minha opinião a respeito de extensores penianos. Na última gestão da Sociedade Brasileira de Urologia, como chefe do Depto. de Andrologia, estive algumas vezes na ANVISA em Brasília para discutir a respeito desses aparelhos, e mesmo lá, ninguém soube dizer como ele foi aprovado sem qualquer estudo científico que comprove sua eficácia e segurança, sem aprovação de qualquer conselho de ética e pesquisa, o que bem sabemos sempre ser necessário antes da utilização de qualquer tipo de procedimento em seres humanos. Foi feita nessa ocasião uma pesquisa extensa sobre isso, não se encontrando na literatura indexada nenhum artigo científico peer review sobre esse assunto. Dessa maneira a própria ANVISA negou o registro de novos aparelhos desse gênero e nos afirmou estarem revendo o processo de aprovação desse extensor que existe no mercado brasileiro com a aprovação deles! Concordo que não devemos ser céticos e preconceituosos em relação a métodos novos - muito antes pelo contrário - mas defendo também a posição ética de que tratamentos de eficácia e segurança duvidosos ou desconhecidos não devam ser utilizados em seres humanos até que se comprovem esses atributos. Dessa maneira continuo referendando os Consensos Brasileiros - Diretrizes da SBU - e Latinoamericano de DE e Sexualidade onde os maiores especialistas nacionais e da América Latina claramente têm um consenso de que esses métodos não devam ser utilizados na população em geral até que estudos clínicos sérios, com aprovação dos Comitês de Ética e Pesquisa sejam realizados e comprovem sua real eficácia e segurança.

PAULO CUNHA (urologista, Rio de Janeiro): Se pudermos raciocinar segundo La Place - P=f/área da seção. Veremos que quando der certo, paradoxalmente vai dar errado. O pênis funciona como um cilindro. Deve existir uma relação ideal da circunferência com o comprimento. Quando, proporcionalmente, aumentamos o comprimento, a área da seção desse cilindro será menor. Logo, com a mesma força, será necessário uma pressão maior. De modo prático: Qual será o valor necessário de P para um pneu de bicicleta? Será maior do que o valor de P de um pneu 185x70x13. Baseado no raciocínio (converse com Dr Pedro P Leão) eu julgo que a cirurgia de Nesbit para Peyronie só traz benefício, por acaso. Alguns acham que é por inexistir um comprometimento da função venoclusiva. Não concordo muito, não. A proporção do diâmetro em relação ao raio (raio do corpo cavernoso e não do total peniano) é melhorada, na medida que reduz o comprimento. Outros métodos, em geral, aumentam proporcionalmente o comprimento, ao reduzirem o raio do pênis. Façam uma pesquisa séria e, verificando os tamanhos de implantes penianos - excluindo, a princípio, os portadores de doença que possam justificar comprometimento da estrutura tecidual cavernosa e alterar sua expansibilidade, por exemplo - poderemos, talvez, verificar que os implantes são mais comuns em determinados tamanhos (comprimento x diâmetro). Segundo Goldstein, Tejada e Ulman (publicado em 1998 no IJIR), três fatores devem ser observados: equilíbrio pressórico intracavernoso, geometria peniana (sempre um cilindro) e expansibilidade ditada pela composição tecidual cavernosa). Volto a afirmar: conversem com P Leão. Ele tem um trabalho muito interessante, de 1992, que, na minha opinião, "fundamentou" alguns trabalhos posteriores (omitem o trabalho do Pedro). Só conheço um método. Infalível para quem quer ver o seu pênis aumentado. Interpor uma lupa entre os olhos e aquele, o pênis, conforme jocosamente foi proposto no Congresso da ISSIR, em São Francisco, em 1996, pelo Bestane, nosso saudoso Bestane.

EDUARDO LOPES: Gostaria de dar uma sugestão: porque a ABEIS ou a SBU, através do seu Departamento de Andrologia, não escolhe uma universidade brasileira de prestígio, percorrendo todos os caminhos legais, e realiza um estudo com este tal extensor? Evidentemente, com todos os passos sendo divulgados aos seus membros, inclusive se a empresa fabricante se recusar a colaborar. Acho que poucos sabiam que o Cláudio tentou alguma coisa neste sentido no Rio Grande do Sul. Teríamos finalmente, pelo menos, algum argumento científico até para proibir de vez a venda, além de prestar um grande serviço informando a comunidade brasileira.

CARLOS DA ROS: Há uns dois anos, uma empresa destas ofereceu dois extensores para o Cláudio Telöken, para experimentar no ambulatório da Santa Casa de Porto Alegre e ele pediu um número maior, mas após a aprovação de um projeto completo pelo comitê de ética. Obviamente que a empresa sumiu. Mas acho que isto realmente deveria ser feito para terminarmos com a discussão.

SIDNEY GLINA (urologista, São Paulo-SP): Caros amigos. Gostei de ver como este assunto "mexeu" com os ânimos de todos. Deveríamos discutir mais estes assuntos desta maneira. Concordo que o homem pode querer aumentar o seu pênis, da mesma forma que as mulheres aumentam a mama. Entretanto, isto não é possível de uma forma efetiva e segura. Esse assunto tem sido discutido de forma séria em nossos eventos. Foi na SLAIS, foi no Congresso Brasileiro em Foz e nos Consensos Brasileiros e Latinoamericanos. A literatura mostra que as operações propostas não são efetivas e apresentam um grande número de complicações graves. A reunião da SSM (Society of Sexual Medicine) na AUA confirmou isto há cerca de dois meses. O que existe por aí são vendedores de ilusão e que infelizmente podem trazer conseqüências graves. Eu tive um paciente, médico, que, por causa das complicações, suicidou-se. Portanto, o assunto é muito sério e temos de ter muito cuidado com estes pacientes, que sem dúvida precisam de tratamento, mas não no pênis.

JOSÉ SCHEINKMAN (urologista, Rio de Janeiro-RJ): Um outro aspecto a considerar é que, se a pessoa está insatisfeita com o seu pênis o problema da referida insatisfação deverá ser resolvido de outra maneira que não a cirurgia ou extensores. Mas, a partir do momento que faço qualquer procedimento, isto é, ponho a mão, passo a ser o responsável direto pela insatisfação da pessoa e passível de ação judicial.

HENRIQUE CHVAICER: Pelos e-mails trocados, vê-se que o tema está muito longe de ser considerado um assunto encerrado. Ficaram faltando as referências de trabalhos que comprovem os argumentos de que alongamento peniano NÃO funciona (ou não funcionaria). Até agora não se provou nada, apenas defenderam-se pontos de vista. Creio que o melhor a fazer é formar grupos de estudo, como sugerido por pelo menos dois colegas, para que possamos um dia, com argumentos palpáveis, afirmar: “Baseado no estudo realizado pelo Dr. .... em....., o melhor para o seu pênis pequeno é ....” Ano retrasado, num encontro de sexualidade em Salvador, levantei uma pergunta para os colegas médicos participantes: "Se você tivesse um pênis 2 a 3 cm maior do que é hoje, você ficaria: a) insatisfeito, b) satisfeito ou c) indiferente". Não é difícil imaginar a resposta mais votada. Sabemos também que na medicina, as verdades (e as mentiras) têm pernas cada vez mais curtas. A Terra já foi plana, o sol já girou em torno da Terra, voar era só para os pássaros, transplante de coração era fato impensável, tratamento das disfunções sexuais era coisa de charlatão inescrupuloso, etc. Em Itatiaia (RJ) havia uma estátua de um índio vergando uma barra de ferro escrito assim: "O difícil se consegue logo. O impossível demora um pouco mais".

EDUARDO LOPES: Acredito que esse seja o caminho: pesquisa ética e bem conduzida em instituição séria. Caso contrário, as dúvidas vão continuar, e não vejo nenhum "autor citado" para provar o contrário. Vejo muito preconceito alimentado pela falta de estudos que realmente definam condutas.

HENRIQUE CHVAICER: Na verdade o que defendo não é o alongamento, e sim o debate sobre o tema. O que quero é ter a mesma certeza de todos os que estão convictos de que alongamento é um absurdo, mas baseado em trabalhos e não opiniões. Não adianta mostrar trabalhos de complicações cirúrgicas, pois complicações ocorrem em hernioplastia, prostectomia, implante de prótese peniana, mas nem por isso deixamos de fazê-lo. Idosos morrem de pneumonia hospitalar após terem operado colo de fêmur por tropeção em tapetes soltos dentro de casa, mas nem por isso se condenam os tapetes. Veja que depois de uma semana de debate, ainda não apareceu nenhuma referência sobre trabalho realizado com extensores, nem entre os que condenam o seu uso. Quero deixar claro que não sou adepto nem entusiasta do extensor, mesmo porque os poucos pacientes que tive e que usaram, alguns gostaram do resultado e outros não. Ainda acho válido o seu uso para aqueles pacientes que estão determinados a fazer alguma coisa pelo seu pênis pequeno, como aqueles que se sairem do meu consultório sem uma solução "palpável" vão pegar o primeiro avião para Porto Alegre e operar de qualquer maneira. Paulo, já que você mencionou trabalhos de Tejada, P Leão, Goldstein, La Place, mande os textos ou aonde encontrá-los. Se for o caso, vamos estimular um estudo com grupos diferentes sobre extensor e concluir de uma vez por todas como se faz nos meios acadêmicos e científicos.

GERSON LOPES (ginecologista, Belo Horizonte-MG): Prezados colegas. Está na hora de aprendermos a escutar os nossos clientes. Não só ouví-los, que é um fenômeno puramente físico, mas também escutá-los, aí sim, incluímos o psíquico. Neste caso, podemos captar muitas mensagens latentes por trás das manifestas ("ouvir nas entrelinhas"). Quando alguém queixa de seu tamanho do pênis (lembre que você está atendendo uma pessoa e não seu pênis) e diz que isso impede uma vida sexual normal pode ser que no fundo, acreditar nisso, seja uma defesa. Sentindo-se incompetente ele pode evitar sexo e com isto se proteger. De quê? Pode ser de intimidade, de compromisso, do prazer, do complexo da "castração", etc. Pode ser que todo sintoma não seja uma defesa como a psicologia quer nos dizer, porém, em muitos casos sim. Comecem a ficar atentos naqueles indivíduos que dizem nunca ter tido vida sexual porque acreditam que seu pênis é pequeno (inclusive quando perguntado sobre seu tamanho, em geral relatam tamanhos maiores que a média), e por isso nunca viveram um processo afetivo (namoro, casamento, etc). São masturbadores quase compulsivos. São estas pessoas que vão procurar profissionais que não vão resolver seu problema, por isso não aceitam uma criteriosa indicação médica. São ávidos (clientes habituais) por médicos que prometem pela mídia soluções miraculosas. Se tivesse realmente uma solução, provavelmente estes clientes não iriam submeter ao tratamento, pois assim perderiam a sua defesa. Sorte deles que ainda (provavelmente nunca) não existe solução. Alguns casos de disfunção erétil primária (em que o individuo nunca conseguiu ou realmente nunca tentou) ou de mulheres que queixam que "molham" muito e por isso quase não têm vida sexual, podem satisfazer esta mesma origem, que seria psicológica profunda (ou intrapsíquica). No caso destes homens, muitos tomam as medicações orais (alguns dizem que tomam e não tomam) e segundos depois vão para o sexo ou ficam esperando as ereções espontâneas. E chegam nos dizendo que não deu certo. Na verdade, não poderia dar certo. Em geral falam do medicamento com muita resistência ("cria dependência", "pode me fazer muito mal", "sou muito novo para isso" etc.) Trabalhar esta defesa é fundamental. Infelizmente, estes clientes se mostram muito resistentes à uma ajuda realmente efetiva. Não só o médico tem que perceber isto, mas principalmente o seu cliente.

LÚCIA PESCA (psicóloga e sexóloga, Porto Alegre-RS): Nos últimos anos tratei de dois jovens (19 e 25 anos) após este procedimento com complicações sérias. Nós profissionais da área temos a obrigação de levar à população leiga esta discussão.

CARLOS DA ROS: Vários trabalhos concluem dizendo que o problema do pênis pequeno tem que ser tratado do ponto de vista psíquico e não em um bloco cirúrgico.

LEONARDO MESSINA (urologista, Sorocaba-SP): Refletindo sobre o tema, quando nos deparamos com um homem com pênis de até 10 cm (na minha prática só atendi dois pacientes assim) o que fazer? Não é um micro pênis, mas sabemos que terá problemas na penetração, além dos traumas.

LUCIA MISORELLI: Sempre soubemos (nós, mulheres), quanto é séria esta questão de tamanho de pênis para os homens, mas senhores não é um problema para as mulheres. Tenho ensinado às minhas pacientes que ao saírem com homens de pequeno membro como alcançar o orgasmo e que o que importa realmente para as mulheres são os primeiros dois centímetros na penetração, até homem impotente pode levar uma mulher aos céus, é só uma questão de imaginação, vamos mostrar aos nossos pacientes homens que o prazer tem diferentes formas de acontecer e que ele tem que primeiro se aceitar e não se sentir inseguro, e depois aprender a tocar uma mulher, o que muito homem de membro avantajado não sabe e nem consegue.

CARLOS CARRION (psiquiatra, Porto Alegre-RS): Gostaria de dar a minha opinião sobre esta celeuma que se está criando sobre as cirurgias de tamanho de pênis, principalmente depois da última reunião da ABEIS. Como não tenho o endereço dos demais sócios pediria que fizessem o favor de repassar este. Penso que em termos de Ciência não temos o direito a posições dogmáticas. Isto é para as religiões. Portanto, investigar, pesquisar, avaliar deve ser feito com destemor. Não acredito que nós Médicos tenhamos o direito de decidir pelo paciente; o que ele vai, ou não fazer com qualquer parte do seu corpo. Podemos, isto sim, nos recusarmos a realizar aquilo com que não concordamos. Temos obrigação de transmitir ao paciente todo o conhecimento que temos sobre um tema, para que ele soberanamente decida. Neste momento, começam pontos que acho que devemos levar em consideração. Alguém citou que se as mulheres têm o direito de se siliconarem, porque os homens não teriam direitos iguais? Lamento por quem fez esta colocação. Vejo que muitos que colocam seios de silicone (por exemplo), não explicam claramente para as mulheres que elas vão ter de mexer na prótese a cada X anos. Que existem riscos cirúrgicos. Que estão muitas vezes atendendo a um modismo que pode ser mudado da noite para o dia, deixando-as com cicatrizes que as acompanharão para o resto da vida. Vi discutirem técnicas e problemas destas técnicas (pelo menos em termos teóricos). Não vi nenhum comentário a respeito do que me parece ser o problema principal destes pacientes. A sua insegurança vivencial. A sua incapacidade de acreditar em seus valores. A sua NEUROSE. É possível que alguns se curem de sua neurose por terem seu pênis encompridado e engrossado. Como algumas mulheres são curadas por uma plástica. Mas na maioria dos casos o que se tem depois são seres infelizes que se dão conta que acreditaram numa quimera. Só que agora com lesões definitivas. Os processos contra plásticos vem num crescendo. A maior parte deles abafados por acordos. Os aumentadores de pênis até hoje se salvaram baseados no “constrangimento dos pacientes”, como me disse um deles. Mas até quando este constrangimento vai durar? Será que logo a ganância de uma bolada por conta de "dano moral" não mandará certos escrúpulos para os quintos dos infernos? Já tenho sido procurado por advogados que me propõem um X (conforme conta uma piada, Getúlio havia dado um cargo para um amigo seu, com a recomendação de que não se deixasse subornar. – Pode deixar. Qualquer coisa eu lhe aviso. Alguns meses depois o homem aparece de inopino no gabinete do Getúlio. - Dr! Tô devolvendo o cargo porque eles tão quase chegando no meu preço!!) para que eu prepare pacientes para enfrentar as vicissitudes de um processo (nenhum ainda por aumento de pênis). Não aceitei. Mas mais cedo ou tarde alguém vai pegar. Nos EUA já tem. Aqui é só uma questão de tempo. Portanto, meus caros, ou assumimos que estes tratamentos, antes da técnica passam pela área psicológica, ou vamos ver muita gente boa se incomodando com neuróticos em busca de uma compensação.

JOÃO SCHIAVINI (urologista, Rio de Janeiro-RJ): Pois bem, amigos. Eu atendi uma senhora que me trouxe o filho de 3 anos, com a seguinte preocupação: “Dr. estou preocupada com o tamanho do pintinho do meu filho... Eu: Senhora, eu vou examinar o seu filho, mas posso já adiantar que em crianças desta idade o pênis costuma ser pequeno mesmo. Se no exame não encontrar nenhuma anomalia, teremos apenas que aguardar o crescimento dele e observar o que acontece...
Senhora: Não Dr., a minha preocupação não é porque é pequeno, é porque é muito grande para a idade... Na verdade é muito maior que os dos irmãos e primos e eu fico preocupada com o seguinte: e se quando ele crescer for se casar com uma mulher rasa?”
Juro que é verdade. Ato contínuo (depois de não conseguir conter o riso - que ela também não conteve) fui examinar o menino. Pasmem: o garoto tinha um pênis (flácido) do tamanho do meu dedo médio! Num menino de três anos, o pintinho se estendia até à metade do comprimento das suas coxinhas. Era um pênis de aspecto normal para a idade, exceto pelas dimensões. O prepúcio recobria a glande e tinha ainda algumas aderências. O meato uretral era tópico e a glande tinha aquele formato típico da primeira infância. Ao exame físico geral não havia sinais de endocrinopatias. O escroto era típico da idade, os testículos eram tópicos e com tamanho e volume normais para a idade. Não havia pilificação pubiana, axilar e nenhuma outra evidência de desenvolvimento puberal precoce. Ainda assim, solicitei dosagens hormonais e uma ultra-sonografia abdominal e pélvica, cujos resultados foram normais para a idade. Dei razão à senhora e me comprometi a acompanhar seu filho, durante o seu desenvolvimento. Solicitei o parecer de um Endocrinologista pediátrico que também examinou o menino, ele solicitou outros exames que também foram normais e me retornou um parecer coincidente com o meu: macropênis constitucional. Temos acompanhado o menino e o seu pênis vem tendo desenvolvimento consistente com o do paciente. Este não apresenta nenhuma outra anormalidade. Não tenho foto do menino, mas quando a mãe retornar, vou pedir autorização e fotografá-lo para apreciação de todos e todas...Lembrei-me deste caso por causa desta discussão sobre o tamanho do pênis, a propósito do oposto do que é o lugar comum das discussões. Vejam que também há preocupação quanto ao oposto: um pênis muito grande, e por parte de uma mulher, que sabe que isso poderá representar algum problema para o seu filho. Imagine este menino na escola, tão diferente da média dos meninos da sua idade. E depois na adolescência. Se não houver uma orientação adequada, é provável que enfrente situações constrangedoras e com reflexos inesperados... A mim parece que o ideal é ter um pênis de dimensões medianas. Suficiente para satisfazer proprietário e usuária. A grande maioria dos que me procuram com queixa de pênis pequeno, ao exame se revelam proprietários de um membro normal (considerando normal o que é estatisticamente mais freqüente). Talvez a resposta mais acertada às questões quanto às dimensões penianas esteja em facultar as crianças o acesso à educação sexual adequada. Os extremos sempre existirão, mas estarão nas extremidades da curva de Gauss.

HENRIQUE CHVAICER: Note-se que ainda não surgiu nenhuma referência de trabalho sobre o assunto. Será que alguém tem?



AHE Comenta

Neste debate, tivemos uma participação interdisciplinar. Embora as opiniões dos urologistas seja a grande maioria, a visão do ginecologista, psicólogo e psiquiatra também esteve presente.
Em primeiro lugar, ficou bastante claro que, até agora, nenhum estudo verdadeiramente científico provou a eficácia de qualquer tipo de procedimento para o alongamento peniano. O que foi confirmado no último congresso da ISSM (antiga ISSIR) realizado em outubro de 2004, em Buenos Aires, é que algumas técnicas e aparelhos apresentados ainda oferecem um risco muito grande para o paciente sem resolver seu problema.
Em segundo, que a grande maioria dos homens com queixa de pênis pequeno, ao exame físico, na verdade, tem tamanho normal ou maior. Descartando assim a possibilidade de problema de ordem anatômica, o que nos remete a considerá-lo de ordem psicológica.
Neste caso, por intermédio do processo psicoterapêutico (existem inúmeras técnicas eficazes), o paciente descobre a causa subjacente à não aceitação do tamanho de seu pênis. Isto, se ele efetivamente procurar pela terapia psicológica.
Embora de menção rara, vale lembrar, como bem apresentou o Dr. João Schiavini, a situação oposta, dos homens com pênis realmente grande, que também podem possuir problemas sexuais.
Um dia, em um almoço entre amigos, me contaram que em um livro japonês (correspondente ao Kama Sutra), estava escrito que “o melhor, mais poderoso e prazeroso sexo acontecia entre um homem com um pênis muito pequeno e uma mulher com uma vagina muito grande”. Vou deixá-los refletir nestas sábias palavras. (Ainda não achei o livro.)
Cila Ankier
Editora

O debate em si mostra a controvérsia em torno do assunto, que é proporcional à angústia dos homens em relação ao tamanho de seu órgão sexual. Não existem trabalhos que não confirmam a eficácia destes procedimentos, assim como há uma ausência imensa de trabalhos bem desenhados que comprovem esta eficácia.
Sidney Glina
Editor

 

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