SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA

 
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Edição 01 - Julho/Setembro - 2004

Antropometria Peniana
“Qual é o tamanho normal, doutor”

“Antropometria Peniana em Brasileiros”


Disfunção Erétil
Fatores de Risco e Prevenção

Psicoterapia pode ser uma grande aliada do tratamento

Onde Estão os Pacientes?
Disfunções Sexuais Femininas
"O que é Comum?"

As Novas Abordagens e Teorias sobre a Resposta Sexual Feminina
Adolescentes
Adolescentes e o Sexo
Educação
Educação Sexual do Filho e da Filha
 

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Volume I - Número 1 - Julho/Setembro - 2004

Educação sexual do filho e da filha

Cila Ankier*

O comportamento humano de hoje sofre grande influência dos fatos ocorridos no passado e do tempo percorrido para as transformações se completarem e causarem seus efeitos nas diversas gerações.

Diferentemente dos animais irracionais, a vida sexual do animal humano tem sofrido mudanças que percorrem a escala que vai da liberdade à repressão total e que são influenciadas pelos interesses políticos, religiosos e sociais no decorrer do espaço e tempo da existência humana (Foucault 1980, Masters et al 1988, Rosenzvaig 1991).

O final da II Guerra Mundial, em 1945, pode ser considerado um marco para o início das transformações da vida sexual de homens e mulheres, cujos efeitos se repercutem e são sentidos até hoje e, talvez, no futuro.

No início dos anos 40, ainda predominavam os costumes da chamada era vitoriana – repressão sexual, principalmente das mulheres. Elas eram educadas para expressar modéstia, pureza e inocência. Deveriam chegar virgens ao casamento, ser submissas ao marido e o sexo, praticado apenas para a procriação, sem direito ao prazer. Aos homens, cabia demonstrar sua virilidade e desempenhar o papel de provedor do lar - com isso, ganhando o direito de mandar na mulher e nos filhos e todos os poderes masculinos (Foucault 1980, Masters et al 1988). Em nenhuma circunstância, os sentimentos tanto de homens quanto de mulheres eram levados em consideração.

No pós-guerra, com grande contingente de homens mortos nos campos de batalha e os poucos sobreviventes inválidos, coube às mulheres sair de suas casas e partir para a reconstrução financeira e imobiliária (Rosenzaig 1991).

Para entrar no mundo masculino, a mulher precisou se transvestir na aparência, indumentária e comportamento. Nessa época, no ambiente de trabalho, ela usava cabelos curtos ou presos, maquiagem discretíssima, um conjunto de saia e paletó, o “tailleur” - palavra francesa que significa alfaiate (Burtin-Vinholes 1964, Rey-Debove 1999). Mais tarde, passou também a adotar a calça comprida, traje que entre nós ficou conhecido como “terninho”. Além da aparência, seu comportamento também passou a ser tão agressivo e competitivo quanto os homens.

Em sua nova fase, as mulheres mostraram-se tão capazes quanto os homens; ascenderam profissionalmente, ocupando cargos cada vez mais importantes. A mulher submissa, da era vitoriana, sem prazer, também ficou para trás – tornou-se mais exigentes e passou a lutar por seus direitos à uma sexualidade mais prazenteira (Rosenzaig 1991). Hoje, ocupam cargos antigamente impensáveis para a mulher: piloto de avião, presidente de banco e empresas multinacionais, prefeituras, ministérios, presidente de sociedades profissionais, cirurgiãs entre outras (Orosco e Moraes 2004).

Para o lado masculino, esse movimento caminhou ao contrário. Como as mulheres eram consideradas inferiores, seus salários também eram bem mais baixos do que os dos homens, para os mesmos cargos. Com as dificuldades econômicas pelas quais as empresas passavam, era mais vantajoso contratar mulheres por menos. Com isso, os homens ficaram desempregados.

Sem emprego, passaram a colaborar nas tarefas domésticas, aprenderam a cozinhar, a administrar a casa, a cuidar dos filhos. O envolvimento nesse contexto feminino fez com que entrassem em contato com seu universo interior de sensibilidade e delicadeza. Como não resistir à sombra da homossexualidade pairando em seu interior? Essa imagem ainda está associada ao ser “bicha, veado e etc”. A grande maioria dos homens ainda não descobriu como vivenciar estas características, inerentes do ser humana, mantendo sua masculinidade.
No ponto de vista masculino, a mulher era desvalorizada no ambiente profissional e entronizada no lar, tanto assim que recebia o honroso título de “rainha do lar” e como tal ela reinava com pulso e domínio forte.

Para eles, esse início, também foi muito difícil, pois nos domínios da rainha, nada do que fizessem estava certo. As críticas e os julgamentos eram ferozes. E para as “rainhas”, como deixar este posto para alguém notoriamente grosseiro e ignorante no assunto?

A partir do pós-guerra, passaram-se 15 anos de mudanças e adaptações progressivas, que foram preparatórias para o movimento que veio a seguir.
Até então, concordando ou não com as regras, os pais sabiam exatamente como educar seus filhos porque elas eram muito bem definidas. A característica básica era de um lado, os homens másculos, provedores da casa; de outro, as mulheres submissas e virgens até o casamento.

Nos anos 60, os jovens iniciaram o movimento de rebeldia contra essas regras. Como o mundo vivia uma outra guerra, a do Vietnan, o slogan jovem era “Faça o amor e não a guerra” (Masters et al. 1988). E assim foi feito e as relações sexuais antes do casamento foram liberadas.

Com base nas idéias da francesa Simone de Beauvoir, a norte-americana Betty Fridman, em 1963, nos Estados Unidos, iniciou o chamado movimento feminista de libertação da mulher. Devido aos regimes ditatoriais em vários países da América Latina, esse movimento demorou a chegar. No Brasil, por exemplo, as primeiras manifestações organizadas só aconteceram em 1972 (Frei Betto 2001). Nessa mesma época, um outro fator que contribuiu para a emancipação feminina foi o surgimento da pílula anticoncepcional proporcionando à mulher o direito de escolha entre praticar o sexo para procriação ou para o prazer.

Neste período, as normas antigas deixaram de existir e os pais também sabiam exatamente como educar os filhos, pois a regra era a “liberdade”. Como conseqüência, vieram as doenças sexualmente transmitidas, o aumento da gravidez na adolescência e o surgimento de novas doenças, como a AIDS.
Após aproximadamente 40 anos, desde o final do século passado, essa liberdade tem sido questionada e analisada e verifica-se que ela também não levou a resultados favoráveis. Agora, em 2004, ainda não existem modelos, apenas discussões, preparatórias, para se chegar aos novos critérios. E os pais (netos e bisnetos da geração que propiciou a liberdade) tateiam na educação dos filhos, sem parâmetros que os guiem.

A tendência é respeitar o sentimento do filho, limitar (sem a repressão do passado), punir educacionalmente (não pela punição em si), ensinar a cooperação desde cedo, propiciar a verdadeira autonomia com responsabilidade, por mais difícil que seja, desenvolver um diálogo com componente mais afetivo do que meramente saber dos fatos ocorridos no dia-a-dia e procurar colocar-se na perspectiva dos filhos (Tiba 2002, Faria 2003, Faber e Mazlish 2003).

A EDUCAÇÃO
Quando, durante a anamnese inicial, investigo o início da vida sexual de meus pacientes, à pergunta: “como foi sua educação sexual?” 90% responde que na rua, com os vizinhos, colegas de escola. O que é confirmado pelo resultado de uma pesquisa realizada no Instituto H. Ellis (Rodrigues Jr 1993) onde foi verificado que a maior fonte de informações sobre sexo dos adolescentes é advinda de seus colegas de idade, que também aprenderam de seus colegas e como conseqüência, pouco têm a ensinar a não ser sua própria visão distorcida.
Em outro trabalho, as primeiras noções sobre sexo foram recebidas por colegas de idade semelhante (60%), pelos pais (8%) e por professores (9%) e a mesma proporção foi encontrada entre os entrevistados de 20 e mais de 60 anos (Santos 1995).

Os poucos que me contaram ter aprendido algo na escola, atribuíram o conhecimento às aulas ministradas pela professora de Biologia, sobre o funcionamento do aparelho reprodutor feminino e masculino, incluindo a questão da gravidez; os mais jovens afirmaram ter aprendido sobre doenças sexualmente transmitidas, com enfoque maior na AIDS, e como se proteger.

O que acontece com os pais? Encontramos distorções provocadas pela falta de informações que passa de pais para filhos levando o adolescente a percorrer caminhos penosos, quando em seu lugar poderia ter gratas alegrias e uma vida mais sadia (Costa 1986). Os pais não sabem explicar os assuntos relacionados a sexo, transmitem falsos conceitos, não debatem com os filhos sobre suas angústias porque eles não sabem lidar com suas próprias (Monesi e Rodrigues Jr. 1993) ou sentem-se muito constrangidos em abordar o assunto sexo com seus filhos, porque também lhes custa falar de suas próprias falhas (Costa 1999). Ainda existem pais que acreditam que falar sobre sexualidade com seus filhos pode estimular o inicio precoce à vida sexual e que se sentem envergonhados e presos às suas próprias barreiras o que os impede de abrir um canal de franqueza e naturalidade para falar sobre sexo com seus filhos (Oliveira 2001).
Faria (2003) publicou sua experiência com homens em terapia de grupo, cujo enfoque foi trabalhar a questão da paternidade. Ele apresenta os vários momentos pelos quais estes pais passaram durante o processo: de superpai (aquele que tudo suporta), ao de vítima de seus próprios pais (quando identificavam que muitos de seus problemas atuais vinham de seus relacionamentos com seus genitores), à perda de sua onipotência (quando aceitavam suas características de personalidade de forma mais serena).

Uma das frases de um daqueles pais “Fora de casa sou uma coisa, alegre e divertido, dentro sou chato e emburrado, sou o ‘pai’. Meu pai também era assim; de repente, eu sou como ele. Mas eu não quero ser como ele.”, vejo repetida, com pequenas variações, no contexto terapêutico de meus pacientes.

Um dia conheci uma mãe, de primeiro filho, que quando descobria alguém com filhos na idade de sua filha, fazia milhões de perguntas, depois se desculpava dizendo que saiu da maternidade com a filha nos braços, sem um manual.
Do primeiro carinho e beijo no filho recém saído do útero até o término da relação da tríade filho-pai-mãe, há um longo caminho de aprendizagem, acertos e erros a ser percorrido (Tiba 2002, Faber e Mazlish 2003).

Mesmo com todas as transformações ocorridas, vemos que, na grande maioria dos casos, os filhos ainda são educados do modo “antigo”.

Os meninos, para serem líderes, criativos, ousados, competitivos, superiores, fortes, corajosos, machos e não falhar nunca; sem que a sensibilidade e delicadeza sejam estimuladas (Costa 1986, Fagundes 2002). Tais características tornam-se um peso sobre os ombros do adulto, fazendo com que a potência sexual seja quase uma questão de vida ou morte desde cedo (Glina 1997). E as meninas, continuam sendo educadas para serem gentis, obedientes, sentimentais, frágeis, delicadas, caseiras, sensíveis, emotivas, prendadas, submissas (Costa 1986, Fagundes 2002).

Quando a menina é surpreendida tocando sua vagina é repreendida: “é coisa feia”, “que uma menina bonita não deve fazer isto”. No entanto, quando essa situação acontece com o menino, além de ser estimulado, seu pai lhe pede para mostrar seu “documento” (Oliveira 2001).

PROPOSTA
Quando atendo um homem, uma mulher ou um casal com problemas de sexualidade, incluo na terapia a questão da educação sexual dos filhos já existentes e/ou dos que porventura virão.

Para mim, orientar os pacientes e prepará-los para educar sexualmente seus filhos, de forma natural e segura, é tão importante quanto tratar a disfunção sexual. Acredito que essa é um forma de interromper a perpetuação das falhas educacionais.

Em geral, recomendo o livro “O Nosso Livro de Sexualidade” elaborado pela Associação Espanhola de Sexologia Clínica”, onde os pais encontram informações e orientações para transmitirem a seus filhos pequenos ou pré-adolescentes.
Assim como trabalhamos em equipes multidisciplinares no tratamento das disfunções sexuais, não podemos nos excluir de contribuir com a educação dos filhos de nossos pacientes, também de forma multidisciplinar. Hoje em dia, com os “desensinamentos” dos vários tipos de mídia (que se preocupam mais com a questão comercial), com todas as doenças sexualmente transmissíveis, é tarefa de todos nós, profissionais da área da saúde, não só dos pais ou da escola.
Como podemos observar, nos últimos 20 anos, o mesmo contexto é repetido de geração em geração. Onde e como quebrar esse círculo infinito?

Um início é considerar que o desempenho do papel feminino e masculino está em mudança, com isso, é necessário que homens e mulheres estejam constantemente atentos e flexíveis, procurando acompanhar essas transformações.

Na minha observação, embora tenha o forte desejo, a grande maioria dos homens ainda está muito resistente a tornar-se mais sensível, tocar-se mais e se deixar ser tocado para conhecer melhor seu corpo, participar de modo mais afetivo na família, por receio de que essas são características femininas que se eles as expressarem serão menos másculos e poderão ser considerados homossexuais. Em contra partida, a mulher tornou-se mais segura de si, passou a valorizar-se e a tornar-se mais exigente, principalmente em sua vida sexual.

Ainda vemos, no casal, a separação na tarefa da educação da identidade sexual dos filhos. A mãe com a filha, porque ambas são mulheres, e o pai com o filho, porque ambos são homens. E os vemos agindo como seus pais, avós (Fagundes 2002, Faria 2003).

Em primeiro lugar, é importante propiciar informações e vivências que tragam segurança aos pais para que eles possam educar seus filhos com a maior naturalidade e adequação possíveis.

Em seguida, os pais, por serem homens e conhecerem muito bem o universo masculino, ao invés de protegerem suas filhas dos outros homens pelo medo, são as pessoas mais indicadas para prepará-las para conviver com seus parceiros para que ambos tenham uma vida geral e sexual sadia e plena de prazer mútuo. Do mesmo modo, as mães são as pessoas mais indicadas para ensinarem aos seus filhos homens como as mulheres funcionam, sentem e gostam de ser tocadas e amadas.

Proposta ousada?
Talvez sim, como tantas outras que foram ridicularizadas, criticadas e renegadas em passado remoto e que depois tornaram-se parte do dia-a-dia em passado próximo e suplantadas no momento presente.

Talvez não, como tantas outras praticadas por pessoas atentas, flexíveis e sintonizadas com as mudanças necessárias à evolução humana.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Burtin-Vinholes S. Dicionário Francês-Português, Português-Francês. 22a ed. Rio de Janeiro:Globo; 1964. p.556.

Costa M. Sexualidade na adolescência. Dilemas e crescimento. Porto Alegre:L&PM, 1986.

Costa M. A pílula do prazer. Como o Viagra está revolucionando o comportamento e o relacionamento entre os casais. São Paulo:Gente, 1999.

Faber A, Mazlish E. Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar. São Paulo:Summus; 2003.

Fagundes TCPC. Sexualidade humana: causas sócio-culturais das disfunções sexuais. Rev Bras Sex Humana. 2002;13(2):151-6.

Faria DL. O pai possível: conflitos da paternidade contemporânea. São Paulo:Educ e Fapesp, 2003.

Foucault M. História da sexualidade. I A vontade de saber. Rio de Janeiro:Graal, 1980.

Frei Betto. Como o movimento feminista evoluiu no Brasil e no mundo. http://alainet.org/active/show_text.php3, 2004.

Glina S. (Im)potência sexual: mitos e verdades. São Paulo:Contexto; 1997. p.7-8.

Masters WH, Johnson VE, Kolodny RC. Human sexuality. 3a. ed. Illinois:Scott, Foresman; 1988. p.10-24.

Monesi AA, Rodrigues Jr. OM. Sexo e Mitos. In: Rodrigues Jr. OM. (org.) Sexo: tire suas dúvidas. Algumas coisas que você precisa saber. São Paulo:Iglu; 1993. p.47-8.

O nosso livro de sexualidade. São Paulo: Caramelo; 2002.

Oliveira, J.S. – Ejaculação Precoce. São Paulo:Expressão e Arte, 2001. p.11-5.
Orosco D, Moraes R. O poder de salto alto. Isto é. N 1796, 10 de março de 2004. p.56-63.

Rey-Debove J. Dictionnaire du français. Paris:Le Robert e Cle; 1999. p.996.
Rodrigues Jr. OM. Os conflitos e a educação sexual. In: Rodrigues Jr. OM. (org.) Sexo: tire suas dúvidas. Algumas coisas que você precisa saber. São Paulo:Iglu; 1993. p.21-4.

Rosenzvaig R. La sexualidad masculina en la historia. In: Gindin, L.R. – La nueva sexualidad del varon. 2ª. Ed. Buenos Aires:Paidos; 1991. p.37-49.

Santos M.. Sexualidade masculina: verdades e mentiras. Brasília:Thesaurus; 1995. p.13-4.

Tiba I. Quem ama, educa! São Paulo:Gente, 2002.

 

Cila Ankier - É psicóloga colaboradora no ProSex – Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e membro da ISSIR – International Society for Sexual and Impotence Research.

 

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